Educação

OS DESENHOS QUE FALAM

OS DESENHOS QUE FALAM

PARTE 1

Larissa é uma aluninha geniosa de 6 anos da prefeitura de São Paulo, que vive em uma comunidade carente da periferia da zona norte. Mora nos arredores da Via Dutra e estuda em uma escola da conhecida Favela da Funerária. Não bastasse o nome do local ser um tanto quanto assustador, o local também assombra por conta dos graves  problemas sociais, como violência e extrema pobreza.

Essa contextualização é importante para que possamos entender a história de Larissa e os desdobramentos de sua produção artística que tanto fala àqueles que a apreciam.

No início de 2016 apresentei para os alunos o corpo humano. Coloquei uma das crianças da sala em cima de uma mesa próxima da lousa e fui mostrando que somos feitos de várias linhas, volumes e formas. Contornei a crianças com o giz no quadro negro e pedi para que observassem Tudo isso para quebrar o modelo do desenho de “palitinho”, tão comum nesta idade.

A produção da Larissa me encantou. Ela mostrou que tem noção de espaço, de composição e que estava à frente dos colegas da turma dela.

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Na semana seguinte, propus que aplicassem o que ensinei na aula anterior e desenhassem a família. Larissa novamente me surpreendeu, tentando também escrever algo acima dos personagens que representou.

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Um dia iniciei a minha aula sobre as fachadas das casas, mostrando que o desenho daquela casa estereotipada, que todo mundo insiste em fazer, não é real. Mostrei para eles que a maioria das crianças desenhavam uma casa com chaminé, que não existe onde moramos. Pedi para que eles desenhassem as suas casas, prestando atenção aos detalhes da fachada com seus diferentes andares (as casas na comunidade chegam a ter 6 andares), formatos e cores. Desenhei a minha casa na lousa. Ao produzir a sua casa, Larissa fez questão de desenhar também a minha, que eu havia pedido para não fazer parte do desenho deles, pois era apenas um dos vários exemplos de construção. A bela casa de Larissa aparece com flores na porta!

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A cada dia que passava eu ficava mais encantada com as produções dessa menina humilde e um tanto quanto geniosa.  Ensinei um pouco sobre as cores e ela produziu mais um belo desenho. Neste dia mostrei para ela como poderia fazer a pintura do fundo. Seus olhinhos brilharam ao descobrir a mágica do giz de cera em seu desenho…

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Quando Larissa acabava rapidamente o seu desenho, vinha correndo até a minha mesa para pedir autorização pra fazer um desenho livre, outra paixão de muitos alunos desta escola. Orientei que autorizaria, sempre após terminar a minha proposta inicial. Ela produzia imagens encantadoras, próprias de uma menina feliz.

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O tempo foi passando e a produção de Larissa foi melhorando. Vejam que graça esse desenho baseado em uma das obra de Di Cavalcanti! Apresentei a pintura para a turma para ilustrar as cores de nosso povo brasileiro, pois a obra nos apresenta uma “cor de pele” muito comum entre as crianças. Ensinei nesse dia que o lápis “cor de pele” é o marrom e não o rosa…

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Ao final do semestre, após muitas produções lindíssimas, Larissa faz a releitura de uma das obras de Ivan Cruz que mostrei para eles como forma de estimular as brincadeiras de rua, tão esquecidas entre nossas crianças da era digital. Mais uma vez seu desenho ficou espetacular!

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Retornamos das férias de julho, que são apenas de 15 dias, e uma surpresa nada agradável se apresentou na produção da pequena Larissa. Ela estava entristecida e mais nervosa do que o normal… Nem queria muito contato comigo… O que teria acontecido com ela? Por que seu desenho estava assim? A proposta inicial era que produzissem diversos desenhos com as formas geométricas básicas. Era algo simples, que ela tiraria de letra. Cheguei a escrever em seu desenho “Hoje está muito brava”.

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Essa não era a aluna artista que eu conhecia. Eu precisava descobrir o que estava se passando com ela. Ela não autorizava sequer que eu chegasse perto. O que será que havia acontecido com a pequena Larissa? Resolvi aguardar a semana seguinte, pois poderia ser um momento passageiro. Mas não era…

O desenho dela falava e o que eu ouvia naquele momento me preocupava demais!

 

ANDRÉA DE CÁSSIA GIUNTA

Sou formada em Artes Plásticas com Pós-Graduação em História da Arte, ambas pela FAAP. Sou pedagoga e atualmente dou aula de Arte em uma escola particular (onde também atuo como Coordenadora do Ensino Médio) e em uma escola da rede municipal de São Paulo. Tenho 28 anos de experiência na área da educação e divido com os leitores do blog um pouco da minha vivência na desafiadora tarefa de educar.

Meu agradecimento especial a minha querida convidada Andréa de Cássia Giunta pelo belo artigo.

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2 Comentários

  • Responder
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    Márcia Teotonio Diz:

    agosto 25, 2019 at 01:52 am

    Larissa tem uma alma linda… ela voltou a desenhar?

    • Responder
      Avatar
      Andréa Diz:

      agosto 25, 2019 at 04:24 pm

      Márcia Teotônio a história de Larissa continua na semana que vem. Você saberá se ela voltou a desenhar!

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