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O jogo dos trilhos

O jogo dos trilhos

Entendo a vida como um jogo. Nele, há que se saber as regras, saber sobre os outros que estão ao seu lado e ainda sobre os que estão ao seu enfrentamento. Saber também sobre como se posicionar e como tomar decisões a cada nova situação. Talvez, a tal tomada decisão, seja o aspecto mais importante às pessoas, pois, com diferentes pesos e valores, ela é invocada a cada minuto da nossa vida. Caso essa seja adequada, trará tranquilidade, a colocá-las no preparo aos desafios que se seguirão.

É comum quando se fala sobre um jogo, o uso de palavras que remetem a caminhos já percorridos nos tempos mais antigos. Batalha, guerra, flancos, agredir, superar, cortar, lançar, rebater, encurralar. São muitas. Não há como citar todas aqui. Mas, para que se consiga utilizar-se dessas palavras e jogar, o caminho é reavivar as memórias obtidas e montar estratégias para, então, tomar decisões de avanço em direção aos objetivos desejados, cuidando da retaguarda e das garantias defensivas. Nos casos de fraquejar o ataque, deve-se ter recursos para se reconstruir e ir adiante novamente. Neste momento, o intuito foi de trazer palavras envolvidas em jogos, mas que tenham um paralelo com o sentido de vida.

Os jogos têm a vantagem de poder ser jogado por todos. Cada qual diante das suas possibilidades e habilidades. Alguns necessitam mais das capacidades físicas, outros mais da capacidade lógica. Quando são coletivos, precisarão das duas qualidades com intensidades diversas que podem ser obtidas por diferentes elementos de um grupo. O bom disso é que cada um pode se impor na sua qualidade e na sua tomada de decisão individual (por vezes imprevistas ou intuitivas) e, estas, em função do objetivo e da índole coletiva. Ou seja, o jogo ensina o jogador a jogar enquanto ele joga.

Assim é a vida. A individualidade é percebida pelas capacidades e habilidades de cada um. Elas se ampliam a partir dos chamados à sua atuação. A cada situação nova acontecida, surgem os ineditismos das ações geradas por reflexões/intuições baseadas nas memórias incrustadas nas profundezas das experiências.

Atualmente veem-se muitos pais e mães que tiveram dificuldades em entender os jogos. Penso que muitos deles, os pais e as mães, passaram por obstáculos e conflitos enquanto jogaram, mas não carregaram na memória os aprendizados que eles trouxeram. Não souberam ler as regras, principalmente aquelas sobre em que a participação é daquele quem está no jogo. Pode até haver um líder ou um técnico a orientar, mas joga quem está no jogo.

Os pais e mães que jogaram, mas não captaram o sentido da vida em que relaciona os tropeços e frustração aos ganhos de recursos e de fortalecimento para os futuros enfrentamentos, andam “limpando trilhos” (reportagem da Folha de São Paulo, caderno Equilíbrio do dia 27 de março de 2019 – sobre pais que roubam o amadurecimento de seus filhos) para que seus filhos não sofram com os obstáculos, para que os “coitadinhos” não se desgastem com esforços “desnecessários”. São pais e mães querendo dar o melhor, porém, ao contrário, tiram as possibilidades dos filhos reconhecerem seus próprios recursos e os prazeres de cada jogada.

Tenho a impressão que ainda muitos pais estão jogando, ou brincando, ou medindo suas próprias capacidades (pode até ser do aspecto financeiro) e habilidades, colocando seus filhos, criações biológicas, como personagens ou peças de seus tabuleiros para apostarem nos seus desejos pessoais e imaginários de conquista através dos filhos.

É uma forma egoísta de conquista que vê sua batalha a ser vencida a custa dos apequenados e pouco móveis peões que, quando chegam frente aos bispos, às torres, aos cavalos, ao rei e à rainha, praticamente não têm recursos para se quer saltar, para dar passos largos, para caminhar com mudanças de direções. Ficam ali, à espera de serem movidos e, por vezes, engolidos pelos que são mais vividos e, portanto, mais resistentes aos tombos.

O meu medo é de que os pais andam limpando trilhos demais e, na contrapartida, vê-se cada vez mais os filhos se jogando frente aos trens. Quando não são estas máquinas pesadas e poderosas a os atropelarem, são seus vagões carregados de pós e fumaças enlouquecedores, carregados de bebidas que atordoam, que ficam ali vagando nos seus vai e vens, à espreita, esperando jovens inseguros, indefesos e sem conhecerem seus desejos, nas estações da vida sem sentido.

Combater tais fraquezas, é permitir que as crianças joguem o jogo dos seus trilhos, reparando a sua própria máquina a cada paragem. Nesta, há que se dar conta do que se carregam nos seus vagões. A cada estação, os pais devem conversar com seus filhos sobre o caminho percorrido, o que será trilhado e ajudá-los na organização da carga, para que sigam limpando os trilhos da jornada a construir, com seus recursos, a sua própria história de vida.

Por Marcio Macarini, 28 de março 2019

 

 

 

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