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UM SUBSTANTIVO PARA CHAMAR DE MEU

 Quando nasci minha mãe decidiu que eu me chamaria Fabiana, mas meu pai me registrou e decidiu homenagear minha tia. Então me deu o nome de Shirlei.

Eu fui crescendo e logo percebi que não se tratava de um nome comum no nosso país. As primeiras pistas vieram logo cedo na escola, quando no processo de alfabetização nos foi apresentado às sílabas: XI e CHI. Mas em momento algum foi citado à sílaba SHI. Desde então a confusão teve início.  Em outro momento surgiu o raciocínio, considera-se o H sem som, então a pronuncia do SHI virá SI, certo?  Não! Meu nome é Shirlei e não Sirlei. Assim foi ao longo de longos anos escolares.

Já adulta nos restaurantes que pedem o nome do cliente, me rendeu uma coleção das formas mais variadas e possíveis de como escrever meu nome: Xirlei, Chirley, Chile, Chili, Xchirley, Shyley, Chiley…

Essa situação para mim nunca foi um problema, pelo contrário sempre levei com bom humor, ao longo dos anos se tornou normal, em alguns casos até previsível.

Talvez foi por isso que quando chegou a minha vez de presentear alguém com um substantivo próprio para chamar de seu por toda a vida, pensei em toda a complexidade, seriedade e complicações que essa escolha traria como consequência para aquelas pessoas a quem chamaria também de filhos.

Pensei no som, na pronúncia, na dificuldade do traçado das letras, se sua combinação com o sobrenome não resultaria num cacófato e se causaria confusão num restaurante quando pedissem os nomes para anotar.

Ufa! Jamais imaginei que a escolha de um nome exigia tanta responsabilidade e reflexão.

Quando estava grávida da minha primeira filha, as pessoas perguntavam :

-Como se chamará?

Eu e meu marido respondíamos seriamente:

-A junção de nossos nomes Shirlei + Eduardo = Edurlei.

Era muito engraçada a reação das pessoas. Buscando manter a boa educação, os comentários eram :

-Nossa! Diferente. Que criativo. Interassente.

Nunca ouvimos alguém dizer:

-Que lindo!

Quando esclarecíamos que se tratava de uma brincadeira, as expressões de alívio eram cômicas, só então revelávamos que o nome escolhido seria Fernanda.

Na segunda gravidez achávamos que tudo estava sob controle, se menino Eduardo, se menina Eduarda, simples assim. Então vem a vida e nos mostra que nada está sob controle.  Foi quando logo no primeiro mês descobrimos se tratar de gravidez gemelar. Dentre todas as preocupações que se dobravam, acabávamos de adquirir mais uma, escolher um segundo nome mais lindo do mundo e cercado de todos os cuidados já citados.

Recuperados da surpresa, depois de um bom tempo, decidimos que os dois meninos se chamariam Eduardo e Diego. Sem dúvida foram os substantivos próprios escolhidos para eles levarem por toda vida.

Por falar em vida, percebi que tal palavra também se trata de um de substantivo, só que de outro tipo, abstrato. Mas tal classificação não a torna menos intensa, complexa e até mesmo concreta para circularmos por ela carregando nossos substantivos próprios tão cheios de significados.

 Por Shirlei Pio

 

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1 COMENTÁRIO

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    Sueli Diz:

    novembro 17, 2018 at 12:02 pm

    Parabéns muito boa sua trajetória de vida.

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