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Água e Óleo

Água e Óleo

Duas palavrinhas com o mesmo número de letras e igual acentuação. Mas que não se misturam.

Há alguns dias, tive uma conversa que me remeteu a pensar sobre a água e o óleo. Na verdade, uma situação familiar bastante complexa em que não se consegue estabelecer vínculo afetivo na própria família. Existe uma dificuldade que precisa ser entendida e interferida para que se possa estabelecer uma convivência saudável para todos.

O que realmente intriga é o fato de serem pessoas que se apresentam como tranquilas, todas “são do bem”. Eu acredito nisso! Todos lutam, cada um do seu lado, de todas as formas para que os encaminhamentos deem o resultado adequado da boa relação dentro de casa. Buscaram terapeutas e psiquiatras, mesmo com uma parte a negar qualquer acompanhamento.

Durante a conversa, perguntei ao jovem sobre o que ocorreria se colocássemos água e óleo num mesmo copo. De pronto a resposta veio que o óleo se sobreporia à água. Completei a pergunta sobre como se daria a mistura e ele disse: “não se misturam”. Daí, comecei meu raciocínio.

Fomos encaminhando o diálogo sobre cozinhar. Adoro cozinhar, o rapaz sabe disso por outras conversas que tivemos. Fui alinhar o meu pensamento sobre como eu cozinho arroz: coloco no fundo de uma panela um pouco de óleo, aqueço-o e despejo cebola bem picada até que fique transparente; adiciono o alho miudinho que é muito rápido de fritura. Com os dois bem fritinhos, junto, então, o arroz para uma última refogada. A finalizar, coloco sal e água para cobrir a mistura. A água fica com algumas rodelas de óleo boiando sobre ela. A fervura e o tempo levam ao arroz absorver os líquidos e o sal, assim como o sabor, e, quando pronto, observo um produto branquinho, saboroso no conjunto de todos os ingredientes sem que seja possível separar uns dos outros. Nem a água do óleo.

A observar seu semblante, vi que ele entendia o que eu estava a dizer. Por outro caminho, falei deles, pais e filhos, como bons ingredientes, cada qual com suas características e que, se olharmos para cada um como ocorre atualmente, não haveria chances de se estabelecer um bom convívio e boas interações. Mas que, caso haja boas possibilidades de interferências, a junção do conjunto das suas qualidades, mesmo que ainda mediadas, poderiam oferecer um produto diferenciado e saboroso, além de nutritivo e prazeroso.

A qualidade para produzir um bom prato está na habilidade de juntar e saber manipular bons ingredientes, por vezes até ácidos ou ardidos, mediada por proporções adequadas de cada um, em cozimento parcimonioso e na temperatura adequada, colocando cada elemento ao seu tempo.

Assim tenho a crença de que ele tenha entendido o papel de cada um nesse processo e que ele, escola, família, terapeutas e talvez ainda outros, tenham a sua parte a oferecer como ingrediente na produção do relacionamento saboroso na boa convivência.

Macarini novembro, 2017

 

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5 Comentários

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    Tatiana Diz:

    Maio 26, 2018 at 10:00 am

    Adorei !

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    Cristiane Watanabe Diz:

    Maio 26, 2018 at 11:48 pm

    Como sempre, sábias e lindas palavras Maca! Cada texto seu é um aprendizado, sorte nossa poder ler o que escreve. Obrigada!

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    Fabiana Diz:

    Maio 26, 2018 at 01:02 pm

    Amei!!!

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    Luciana Diz:

    Maio 26, 2018 at 07:28 pm

    Educador sensível, experiência tocante, troca, olhar, sabedoria. Adorei, Maca!

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    Mônica Zanardo Diz:

    Maio 26, 2018 at 12:15 am

    Maca
    Sensibilidade aliada ao conheconhecimento.
    Reflexão oportuna .

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