Educação

OS DESENHOS QUE FALAM – parte 2

A produção de Larissa não estava boa. Tentava me aproximar  dela para saber o que estava acontecendo e ela não falava nada. Neste dia estava abatida e novamente se recusou a fazer o desenho de arte abstrata que apresentei para as crianças: eles deveriam colocar as formas geométricas de maneira livre e divertida, umas encaixadas nas outras para que formassem novas imagens. Não houve produção por parte da pequena artista…

 

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Na semana seguinte Larissa estava agressiva, nervosa e com o rosto muito fechado. Entrei na sala e falei para a turma que mostraria algumas obras do artista Nelson Leirner, pois ele também gostava de fazer arte abstrata com formas geométricas. Através dessa apreciação eu faria um link com as produções da aula anterior. Ela chegou a colocar o nome da lição no caderno, mas logo depois desistiu de desenhar. Pediu para fazer um desenho livre, quebrando com o nosso trato inicial que era de fazer um segundo desenho somente após terminar a proposta da aula. Pensei rapidamente, mas aceitei. Eu tinha a chance de tentar entender o que se passava com a minha melhor desenhista.

 

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A minha preocupação aumentou ainda mais quando Larissa rabiscou toda a folha e fez um show de horrores na sala: chutou a mesa, se jogou no chão, me empurrou e para fechar com chave de ouro,  cuspiu na mesa.  Escrevi em seu caderno: brava!

 

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Pronto, aí foi a gota d’água da falta de respeito. Falei bem firme, como ela nunca pode ver. Mostrei que a sua atitude não era legal e que eu estava bastante triste com a sua postura. Larissa chorava muito. Saí da sala e fui dar aulas em outras turmas. Quando voltei para o andar da sala dos professores, que é o mesmo da sala dela, vi Larissa encostada perto da sala da coordenação, ainda em prantos. A professora encaminhou-a para a coordenadora, pois ela havia piorado o seu comportamento. Ela ainda estava chorando…  Fui em direção à sala dela, sob o olhar curioso da aluninha, que observava cada passo que eu dava. Conversei com a sua professora, questionando se ela sabia o que estava acontecendo. Fiquei surpresa com o que ouvi: sua casa havia queimado em um incêndio que aconteceu no mês de julho. Eles perderam absolutamente tudo do pouco que tinham. Eu fui uma das várias professoras voluntárias que, durante as férias, se mobilizou junto à escola na organização do auxílio às vítimas desse difícil acontecimento. Não sabia que a casa de Larissa havia sido atingida!

Fui ao encontro dela, que já havia parado de chorar. Seu semblante estava mais sereno e seu olhar ávido de atenção. Indaguei: você quer conversar comigo agora? Afirmou que sim e iniciou novamente um choro dolorido e cheio de angústia. Levei-a até a sala dos professores e coloquei-a em meu colo. Deixei-a chorar por longos minutos, abraçando-a com carinho. Quando acalmou, questionei: “Porque você não me falou que estava triste? Por que brigou comigo e fez todas aquelas coisas feias?  Você sabia que eu estava lá perto de sua casa quando tudo aconteceu?”

Conversei com paciência e amor por muitos minutos, afirmando que ela era uma artista e que eu sentia falta da minha melhor desenhista! Pela primeira vez, após longas semanas, pude ver o sorriso de Larissa. Não deixei de falar que ela havia errado e que eu estava bastante triste com o show de horrores que ela tinha feito na sala de aula. Ganhei um beijo de desculpas e prometi que esqueceria o ocorrido.

Após conversar com Larissa percebi o que estava acontecendo:  ela estava falando através de seu desenho e também através de seu corpo, expressando toda a sua raiva e toda a sua dor.

Na semana seguinte iniciei minha aula sobre o Folclore… sua produção estava voltando ao normal. Cantamos algumas músicas, que fazem parte de nossa cultura, e meu coração se alegrou ao perceber que ela caminhava bem. Combinei  com ela, nesse dia, que daria um caderno, alguns lápis e material de colorir para que ela pudesse exercitar seu desenho em casa. Larissa vibrou!

 

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Na aula seguinte Larissa não quis seguir a proposta da sala, pois continuava geniosa e brava, mas deixe-a criar. Não era momento de impedir que fizesse algo pessoal. Fiquei feliz e surpresa ao ver seu desenho… ela estava retribuindo o carinho que tive por ela…

 

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Larissa está voltando a criar com alegria e empenho. Entreguei o que havia prometido e falei que queria ver seus desenhos. Infelizmente ela perdeu o caderno na semana seguinte e terminei por não saber se conseguiu fazer algo nele. O que importava: a pequena artista estava se recuperando…

Ela me ensinou, com tudo o que passamos juntas,  que devo observar as produções dos meus alunos sempre com muito zelo e dedicação… pois os desenhos falam… E como falam!

 

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ANDRÉA DE CÁSSIA GIUNTA

Sou formada em Artes Plásticas com Pós-Graduação em História da Arte, ambas pela FAAP. Sou pedagoga e atualmente dou aula de Arte em uma escola particular (onde também atuo como Coordenadora do Ensino Médio) e em uma escola da rede municipal de São Paulo. Tenho 28 anos de experiência na área da educação e divido com os leitores do blog um pouco da minha vivência na desafiadora tarefa de educar.

Meu agradecimento especial a minha querida convidada Andréa de Cássia Giunta por mais um  belo artigo.

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1 COMENTÁRIO

  • Responder
    Avatar
    Janaina Diz:

    agosto 25, 2019 at 01:25 pm

    Déia… chorei… de emoção! Os desenhos falam muuuuuuuito… Bom seria se todos os professores tivessem essa sensibilidade…. Parabéns! Lindo trabalho e lindo texto!

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